É engraçado pensar que existem certas coisas que, mesmo passada a vida toda, nunca mais vão ser esquecidas. Mesmo que fiquemos caducos, com a memória fraca e com o raciocínio lento, elas estarão sempre frescas na memória. Não sei se engraçado, mas curioso certamente é. Tenho absoluta certeza que nunca vou esquecer das coisas e pessoas que me marcaram por causa do cheiro, porque tenho quase uma obsessão por ele, e essa fixação faz com que eu diretamente ligue um cheiro reconhecido à pessoa que o possui. Não que considere isso ruim, mas por que justamente o olfato? Posso não lembrar do rosto, da voz, de quase nada, mas o cheiro me transporta diretamente pra ocasião em que o senti. Sendo ela boa ou má. E, tanto em uma quanto em outra, é quase como se aquilo estivesse se repetindo. Por mais que muitas vezes a situação não seja das mais agradáveis, essa minha "habilidade" (como poderia chamar isso?) agrada na maioria das vezes, porque a sensação nesse "dèja-vu" (é assim que se escreve isso?) é bem realista e, como as sensações boas acontecem com mais intensidade, justamente por eu dar mais atenção aos cheiros que me fazem sentir bem, então vale a pena cada lembrança, cada memória olfativa, cada minuto dedicado a lembrar, fechar os olhos e reavivar aquele pequeno pedaço de vida que ficou lá atrás e deixou só a sensação boa de uma fração válida do tempo que usamos pra envelhecer.
O gato e o escuro Mia Couto Vejam, meus filhos, o gatinho preto, sentado no cimo desta história. Pois ele nem sempre foi dessa cor. Conta a mãe dele que, antes, tinha sido amarelo, às malhas e às pintas. Todos lhe chamavam o Pintalgato. Diz-se que ficou desta aparência, em totalidade negra, por motivo de um susto. Vou aqui contar como aconteceu essa trespassagem de claro para escuro. O caso, vos digo, não é nada claro. Aconteceu assim: o gatinho gostava de passear-se nessa linha onde o dia faz fronteira com a noite. Faz de conta o pôr do Sol fosse um muro. Faz mais de conta ainda os pés felpudos pisassem o poente. A mãe se afligia e pedia: - Nunca atravesse a luz para o lado de lá. Essa era a aflição dela, que o seu menino passasse além do pôr de algum Sol. O filho dizia que sim, acenava consentindo. Mas fingia obediência. Porque o Pintalgato chegava ao poente e espreitava o lado de lá. Namoriscando o proibido, seus olhos pirilampiscavam. Ce...
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