20 de maio de 2011

Um castelo de areia é construído com muito esforço, às vezes um vento, a água, ou algum desavisado atrapalha, faz voltar atrás,  e a gente refaz, com calma e carinho, e quando parece que enfim ele está firme, bem construído, apesar de alguns detalhes imperfeitos, aí vem a chuva forte.

18 de maio de 2011

Pra onde vão todos os nossos planos abandonados, objetos perdidos,  promessas equivocadas, vontades acovardadas?

5 de março de 2011

Só a espera

Só pra variar, insone.
Por perto, música e ronco.

6 de novembro de 2010

O gato e o escuro

Mia Couto


Vejam, meus filhos, o gatinho preto, sentado no cimo desta história.  
Pois ele nem sempre foi dessa cor.

Conta a mãe dele que, antes, tinha sido amarelo, às malhas e às pintas.

Todos lhe chamavam o Pintalgato.

Diz-se que ficou desta aparência, em totalidade negra, por motivo de um susto.  
Vou aqui contar como aconteceu essa trespassagem de claro para escuro.
O caso, vos digo, não é nada claro. Aconteceu assim: o gatinho gostava de passear-se nessa linha onde o dia faz fronteira com a noite. Faz de conta o pôr do Sol fosse um muro. Faz mais de conta ainda os pés felpudos pisassem o poente.
A mãe se afligia e pedia: - Nunca atravesse a luz para o lado de lá. Essa era a aflição dela, que o seu menino passasse além do pôr de algum Sol. O filho dizia que sim, acenava consentindo.
Mas fingia obediência.
Porque o Pintalgato chegava ao poente e espreitava o lado de lá.
Namoriscando o proibido, seus olhos pirilampiscavam.
Certa vez, inspirou coragem e passou uma perna para o lado de lá, onde a noite se enrosca a dormir.
Foi ganhando mais confiança e, de cada vez, se adentrou um bocadinho.
Até que a metade completa dele já passara a fronteira, para além do limite.
Quando regressava de sua desobediência, olhou as patas dianteiras e se assustou.
Estavam pretas, mais que breu.
Escondeu-se num canto, mais enrolado que o pangolim.Não queria ser visto em flagrante escuridão.

Mesmo assim, no dia seguinte, ele insistiu na brincadeira.

E passou mesmo todo inteiro para o lado de além da claridade.

À medida que avançava seu coração tiquetaqueava.

Temia o castigo. Fechou os olhos e andou assim, sobrancelhado, noite adentro. Andou, andou, atravessando a imensa noitidão.

Só quando desaguou na outra margem do tempo ele ousou despersianar os olhos. Olhou o corpo e viu que já nem a si se via. Que aconteceu? Virara cego?

Por que razão o mundo se embrulhava num pano preto?
Chorou.
Chorou.
E chorou.
Pensava que nunca mais regressaria ao seu original formato.
Foi então que ouviu uma voz dizendo:
- Não chore, gatinho.
- Quem é?
- Sou eu, o escuro. Eu é que devia chorar porque olho tudo e não vejo nada.
Sim, o escuro, coitado. Que vida a dele, sempre afastado da luz!
Não era de sentir pena? Por exemplo, ele se entristecia de não enxergar os lindos olhos do bichano. Nem os seus mesmo ele distinguia, olhos pretos em corpo negro. Nada, nem a cauda nem o arco tenso das costas. Nada sobrava de sua anterior gateza.
E o escuro, triste, desabou em lágrimas.
Estava-se naquele desfile de queixas quando se aproximou uma grande gata. Er a mãe do gato desobediente. O gatinho Pintalgato se arredou, receoso que a mãe lhe trouxesse um castigo. Mas a mãe estava ocupada em consolar o escuro. E lhe disse:
- Pois eu dou licença a teus olhos:
fiquem verdes, tão verdes que amarelos.
E os olhos do escuro de amarelaram. E se viram escorrer, enxofrinhas, duas lagriminhas amarelas em fundo preto.
O escuro ainda chorava:
- Sou feio. Não há quem goste de mim.
- Mentira, você é lindo. Tanto como os outros.
- Então porque não figuro nem no arco-íris?
- Você figura no meu arco-íris.
- Os meninos têm medo de mim. Todos têm medo do escuro.
- Os meninos não sabem que o escuro só existe é dentro de nós.
- Não entendo, Dona Gata.
- Dentro de cada um há o seu escuro. E nesse escuro só mora quem lá inventamos. Agora me entende?
- Não estou claro, Dona Gata.
- Não é você que mete medo. Somos nós que enchemos o escuro com nosso medos.
A mãe gata sorriu bondades, ronronou ternuras, esfregou carinho no corpo do escuro.
E foram carícias que ela lhe dedicou, muitas e tantas que o escuro adormeceu. Quando despertou viu que as suas costas estavam das cores todas da luz.
Metade do seu corpo brilhava, arco-iriscando. Afinal?
O espanto ainda o abraçava quando escutou a voz da gata grande:
- Você quer ser meu filho?
O escuro se encolheu, ataratonto.
Filho?
Mas ele nem chegava a ser coisa alguma, nem sequer antecoisa.
- Como posso ser seu filho se eu nem sou gato?
- E quem lhe disse que não é?
E o escuro sacudiu o corpo e sentiu a cauda, serpenteando o espaço. Esticou a perna e viu brilhar as unhas, disparadas como repentinas lâminas.
O Pintalgato até se arrepiou, vendo um irmão tão recente.
- Mas, mãe:
sou irmão disso aí?
- Duvida, Pintalgatito?
Pois vou-lhe provar que sou mãe dos dois.
Olhe bem para os meus olhos e verá.
Pintalgato fitou o fundo dos olhos da sua mãe, como se se debruçasse num poço escuro. De rompante, quase se derrubou, lhe surgiu como que um relâmpago atravessando a noite.
Pintalgato acordou, todo estremolhado, e viu que, afinal, tudo tinha sido um sonho. Chamou pela mãe. Ela se aproximou e ele notou seus olhos, viu uma estranheza nunca antes reparada. Quando olhava o escuro, a mãe ficava com os olhos pretos. Pareciam encheram de escuro. Como se engravidassem de breu, a abarrotar de pupilas.
Ante a luz, porém, seus olhos todos se amarelavam, claros e luminosos, salvo uma estreitinha fenda preta.
Então, o gatinho Pintalgato espreitou nessa fenda escura como se vislumbrasse o abismo.
Por detrás dessa fenda o que é que ele viu?
Adivinham?
Pois ele viu um gato preto, enroscado do outro lado do mundo.

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2 de novembro de 2010

feriado

Há quase dois dias que meu ouvido não me deixa esquecer que ele existe. E é, definitivamente, como um rio caudaloso e com correnteza. Há quase dois dias que o tempo em que estou em casa é passado na cama, com o computador ou com o violão no colo. E sempre com bichos ronronantes.
O feriado dá sono. E dormir é um bom modo de esquecer esse ruído que não me abandona há dias.

31 de outubro de 2010

rascunho

Faz mais de duas horas que parece que tenho um rio dentro do ouvido... já me distraí com outras coisas, mas a água não pára de correr ruidosamente dentro da minha cabeça... esse som angustiante pra um fim de dia de suposto descanso me fez ter vontade de escrever. mas escrever assim, sem muito rumo nem receita. sem ser poema, sem ser prosa. com jeito de só uma prosa de vizinhos e chimarrão, sem comprometimento com modos prévios ou opinião alheia. tenho agora duas felinas por perto, um violão dormindo do meu lado na cama, o ruído da água do meu rio e o ruído da água que uma das gatas bebe na tigela. tenho lembrança de creme dental no céu da boca, o que me faz lembrar que pretendia logo dormir, tenho a respiração frouxa e os dentes presos por metais que fazem a cabeça doer. tenho o calor do laptop na barriga e as mãos um tanto ressecadas de limpar as flores de corte no trabalho. tenho um diálogo na lembrança. já não sei se isso é um rio ou a água do chuveiro quando uso a touca recheada de bolinhas de isopor no banho. não escrevo mais, acho que desaprendi. sempre pensei que poemas surgissem espontaneamente, como esse rio. ou chuveiro. lembrei que tenho um trabalho que me espera amanhã. amanhã é domingo, mas não qualquer domingo. tenho trabalho amanhã. quando escrevo, raramente é sobre as pessoas da minha vida. tenho algumas, poucas, pode-se dizer, pessoas da minha vida. e se não escrevo sobre, não significa que elas não sejam essenciais na vida que levo. só não sou muito sentimental. eu tive medo de me tornar piegas a vida toda. por isso não falo muito. medo de ser piegas não me ajudou a não ser piegas. acho que fui até em momentos em que não devia. e deixei de ser quando seria perdoável. fazer o quê, ainda hoje procuro caminhos pra me comunicar direito. poucas vezes consegui me comunicar o quanto gostaria, em alguns assuntos. mas essas poucas vezes foram de um valor gigantesco. meu rio é mar, é onda, é espuma. e nele flutua quase tudo que tenho, desde medo até saudade, desde pieguice até silêncio. em algum momento, eu troquei o hábito de atirar palavras pro mundo pelo hábito de engolir palavras, mandar pro estômago. elas viravam mariposas, formigas cortadeiras, todo tipo de ser ou coisa. e me devoravam, de dentro pra fora. acho que consigo ter uma criação cada vez menor de monstros na barriga. porque muitas das palavras que me envenenavam agora são expelidas, e algumas voaram pra algum outro canto do mundo. na certa esperam que meu pensamento as chame de volta. se eu conseguir continuar domesticando-o, elas podem construir casa lá longe. e eu não vou fazer nenhuma visita.
Peguei no sono no meio do caminho. Agora já é o outro dia, e meu ouvido continua com intensa movimentação e ruído, e isso já tá passando do limite. Vou postar isso até aqui, talvez continue mais tarde.

20 de março de 2010

Março, 20, 01:00



Inspirando nuvens,
Expirando chuva,
Transpirando neve.
Com as ideias e as mãos quase vazias.
Só restam uns poucos grãos
Do que um dia eu quis ser
São grãos de uma especiaria cujo perfume e sabor
não abandonam meu olfato e paladar.
Não sei como se chama,
mas não desaparece assim tão fácilmente.

Tenho tentado escrever
contos, crónicas, novelas
especialmente músicas.
Musicar poemas velhos,
expurgos, palavras brotadas, vomitadas, perdidas
dedicadas
delicadas e grosseiras.
E velhas,
mas minhas,
saídas dos sótãos e porões
e pés de escada.
Odradeks idosos.
Insistentes e incovenientes.

As vezes eu penso que seria melhor não ter passado
Ser eu, hoje, só
Só de pensar nas tantas coisas que iniciei e não segui adiante,
da vontade de não ter sido coisa nenhuma
assim não teria tantas "se eu fosse"
Assim haveria ignorância, mas sossego.